Agronegócio banca palestras que espalham mito de que aquecimento global pelo homem é fraude

Luiz Carlos Molion, professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas, disse em uma de suas palestras que aquecimento global “é uma farsa”

 

Uma sala repleta de estudantes de agronomia assiste a uma palestra sobre mudanças climáticas no Brasil. Estão em uma faculdade no Estado do Mato Grosso, maior produtor de soja do país, ouvindo falar um professor da Universidade de São Paulo. Mas o que escutam é o contrário do que acredita a esmagadora maioria da comunidade científica do mundo. Ali, a mensagem transmitida é de que não existe aquecimento global causado pelo homem.

“Os objetivos [de quem fala em mudanças climáticas] são congelar os países em desenvolvimento. O Brasil é o principal foco dessas operações que envolvem meio ambiente e clima. A ideia da mudança climática e dessas questões ambientais são para segurar o nosso desenvolvimento”, afirmou o palestrante, o meteorologista Ricardo Felicio, sem respaldo científico, em uma entrevista concedida após o evento que aconteceu em 2019.

Na realidade, segundo o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de agosto deste ano, o papel da influência humana no aquecimento do planeta é “inequívoco”. É para limitar as mudanças climáticas por meio da redução na emissão de gases de efeito estufa que líderes se reuniram nas últimas duas semanas na COP26 em Glasgow, no Reino Unido.

No Brasil, a maior causa de emissões de dióxido de carbono é o desmatamento feito para expansão da agricultura e da pecuária.

Mas, na contramão do que diz a ciência, associações do agronegócio — de fazendeiros de soja, passando por cafeicultores, sindicatos rurais, faculdades ligadas a agronomia e até uma empresa de fertilizantes — estão bancando palestras dos chamados “negacionistas climáticos”, pessoas que não acreditam que existam mudanças climáticas causadas pelo homem e que apresentam esse fato como uma fraude. As apresentações são direcionadas a outros fazendeiros, produtores rurais ou estudantes de agronomia.

A reportagem contou ao menos 20 palestras do tipo nesses ambientes nos últimos três anos feitas por Felicio e por outro professor. A citada no início desta reportagem aconteceu em 2019, e fez parte de um circuito universitário de um total de 11 palestras com o nome “Aquecimento global, mito ou realidade?” em nove faculdades e dois sindicatos no Mato Grosso. Todas elas foram bancadas pela Aprosoja Mato Grosso, a associação de produtores de soja e milho do Estado, maior produtor de soja do Brasil.

Ao mesmo tempo em que negam o aquecimento global antropogênico, as palestras pagas e vistas por ruralistas os absolvem de reconhecer seu papel nas mudanças climáticas. Elas seriam, de acordo com o conteúdo contrário ao consenso científico apresentado pelos professores, somente fruto de variações naturais, sem interferência alguma do homem.

Ao contrário desse setor “negacionista” do agronegócio, o presidente do conselho diretor da Associação Brasileira do Agronegócio, Marcello Brito, diz que a associação se pauta “pela melhor ciência” e que “jogar fora a ciência porque ela não nos traz só vantagens, mas também deveres, é no mínimo contraproducente, jogando contra a melhoria contínua”.

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Palestras

Felicio, o professor do departamento de Geografia da USP contratado pela Aprosoja Mato Grosso em 2019, é conhecido por suas posições controversas — ultimamente, em relação à pandemia de covid-19. Em um vídeo publicado em agosto deste ano em seu canal do YouTube, chamou a pandemia de “fraudemia” e disse, sem base científica, que vacinas causam danos maiores que a covid-19. Em outro, afirmou que máscaras não são efetivas contra a covid-19. É também um notório negacionista das mudanças climáticas causadas pelo homem. Ficou conhecido em 2012, quando foi convidado ao Programa do Jô, da Globo, e, sem provas, negou o efeito estufa.

A gente trouxe o Ricardo Felicio para fazer um contraponto com aquilo que é replicado na mídia hoje, que parece uma verdade absoluta. A gente não queria impor aquilo como uma verdade, mas sim trazer a um debate”, afirma. Para ele, as mudanças climáticas causadas pelo homem ainda são uma “incerteza” — embora já haja consenso científico em torno delas. Beber também disse não se lembrar quanto custou o ciclo de 11 palestras feitas por Felicio naquele ano.

No ano passado, o meteorologista também foi convidado para falar no Tecno Safra Nortão 2020, uma feira para produtores rurais, lideranças, técnicos, pesquisadores e estudantes organizada pelo sindicato rural de Matupá, município no norte de Mato Grosso.

Segundo o vice-presidente do sindicato, Fernando Bertolin, ao menos cem pessoas, entre pequenos e grandes agricultores, pecuaristas e outras pessoas da cidade assistiram à palestra. Ele defende o convite, dizendo que, à época, Felicio estava “bem forte na mídia” e que sua palestra “foi um pedido dos produtores”. “A gente ouve todo mundo. Ele tem o embasamento teórico dele e a gente queria saber por que ele dizia aquilo.

Bertolin diz não se recordar do valor da palestra de Felicio de cabeça, mas afirma que nenhuma das contratadas pela feira custou mais de R$ 15 mil.

Em 2018, Felicio concorreu, sem sucesso, ao cargo de deputado federal pelo PSL, antigo partido do presidente Jair Bolsonaro.

Um ano antes, o presidente tuitou um vídeo de uma entrevista em que Felicio nega a existência de mudanças climáticas causadas pelo homem. Bolsonaro escreveu: “Vale a pena conferir”. Consultada pela BBC News Brasil sobre esta recomendação feita por Bolsonaro, a assessoria da Presidência não respondeu.

O professor não foi aclamado apenas pelo presidente. Em 2019, Felicio foi convidado para dar uma palestra no Senado ao lado de outro acadêmico que não acredita no aquecimento global causado pelo homem, o professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), meteorologista Luiz Carlos Molion.

O convite para que os professores falassem em uma audiência pública conjunta das comissões de Relações Exteriores e de Meio Ambiente do Senado sobre as mudanças climáticas partiu do senador do Acre Marcio Bittar (hoje PSL, mas, na época, do MDB), um ex-pecuarista que faz parte da bancada ruralista.

Ao lado de Felicio, Molion é considerado um dos principais representantes do negacionismo climático no Brasil e autor das outras palestras contabilizadas pela reportagem.

Nos últimos três anos, Molion fez diversas palestras promovidas por entidades como a Cooperativa Agrícola de Unaí, em Minas Gerais, a Associação Avícola de Pernambuco, a Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém, com o patrocínio oficial do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo, a Central Campo, uma empresa especializada na venda de insumos agrícolas, a Feira Agrotecnológica do Tocantins, do governo do Tocantins, a feira de Agronegócios da Cooabriel, uma cooperativa de café com atuação no Espírito Santo e na Bahia, e o sindicato rural de Canarana, no Mato Grosso.

Molion também foi convidado para falar em universidades: o Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A BBC News Brasil procurou todas essas instituições para comentar sobre os convites que fizeram a Molion

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