Os pais que espionam o paradeiro dos filhos pela internet

Elaine Spector estava ansiosa por saber se o seu filho havia retornado com segurança ao apartamento dele no Texas, nos Estados Unidos, depois de uma recente visita à família. Mas, em vez de esperar que ele ligasse ou enviasse uma mensagem de texto, a mãe – que mora em Baltimore, também nos EUA – estava cuidando das suas tarefas diárias enquanto aguardava um som tranquilizador – um plim – no seu telefone.

Isso porque, como 32 milhões de outras pessoas em todo o mundo, Spector e toda a sua família têm o aplicativo Life360 instalado nos seus telefones.

O aplicativo controla permanentemente o paradeiro dos seus três filhos, informando a ela quando eles estão em trânsito, quando estão em segurança em casa, se estão em algum lugar onde não deveriam estar e enviando uma série de outras informações.

“Se eles chegam à escola, o celular faz plim. Se eles chegam em casa, plim”, conta Spector, que é advogada de patentes. “É apenas uma forma de a família saber onde todos estão.”

Embora Life360 domine o mercado de aplicativos de rastreamento familiar – atualmente, ele é o sexto aplicativo de rede social mais instalado na loja de aplicativos iOS, tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos -, existe uma ampla variedade de software disponível, todos oferecendo aos pais vários graus de monitoramento.

Ghislaine Bombusa, diretora da área digital da organização Internet Matters, com sede no Reino Unido, que assessora os pais sobre segurança na internet, afirma que existem essencialmente dois tipos de opções de rastreamento. Sua escolha “depende do tipo de pai que você é, em termos do rigor com que você quer monitorar seu filho”, segundo ela.

Os aplicativos mais simples são os de compartilhamento da localização, que vêm instalados em telefones como Find My Friends em dispositivos iOS, ou Google Family, para Android. Existem também aplicativos de terceiros que permitem que os usuários coletem uma série de dados quase ilimitada dos telefones conectados.

Basicamente, esses aplicativos incluem características como delimitação geográfica, enviando um alerta quando um telefone entra ou sai de uma área determinada. Para os pais com motoristas adolescentes, existe também monitoramento da velocidade e detecção de acidentes – algo que Spector afirma ter resultado muito útil.

Em um ponto mais extremo do mercado, aplicativos como FindMyKids permitem ao pai ativar remotamente o microfone do telefone do seu filho e até gravar áudio, enquanto TeenSafe ativa um “modo discreto” que, segundo a companhia, significa que o filho “nunca descobrirá que seus pais o estão rastreando”.

Além do rastreamento físico, os aplicativos podem também gerenciar a vida digital da criança, “seja sobre os seus gastos se você der uma mesada online, ou como e quando eles usam os consoles de jogos”, segundo Bombusa. Aplicativos como OurPact permitem que os pais observem capturas de tela das interações online dos seus filhos, enquanto Bark rastreia efetivamente suas mensagens para alertar os pais sobre “interações preocupantes”.

Bombusa não acredita que todos os pais estejam utilizando esses aplicativos, mas ela afirma que a sua proliferação e a quantidade de investimento nesse tipo de software certamente indicam alta demanda. Uma pesquisa de 2019 entre pais e responsáveis no Reino Unido concluiu que 40% deles estavam usando algum tipo de rastreamento por GPS diariamente.

E esses aplicativos formam um grande negócio. Somente Life360 foi avaliado em mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,5 bilhões) e opera em mais de 140 países. Embora muitos aplicativos ofereçam versões gratuitas, a maioria também tem a opção de upgrade para contas pagas com funções adicionais ou conexão a mais aparelhos.

O aplicativo Circle, que monitora o uso da internet, por exemplo, começa com US$ 9,99 (R$ 54,95) por mês, enquanto TeenSafe oferece um plano para cinco aparelhos que custa atualmente US$ 99,99 (R$ 549,95) por mês.

Dados x confiança

Os aplicativos de rastreamento da localização são anunciados como ferramentas essenciais para os pais em um mundo cheio de perigos.

Eles dependem de pais que acreditem que, enquanto eles souberem onde seus filhos estão, eles estarão mais seguros – ou que os filhos evitarão comportamento de risco se souberem que estão sendo observados. E certamente há casos em que os pais usaram aplicativos de rastreamento para encontrar adolescentes que haviam sofrido acidentes ou até que haviam sido sequestrados.

Mas Sonia Livingstone, professora do departamento de comunicação da London School of Economics and Political Science, acredita que, de fato, “não há evidências de que nenhum desses aplicativos aumente a segurança das crianças. Procuro todas as evidências e nunca vi nenhuma”, afirma ela.

Como especialista em segurança e direitos digitais das crianças, Livingstone escreveu diversos livros sobre a criação de filhos na era digital. Ela acredita que a extensa adoção de aplicativos de rastreamento é uma reação compreensível às manchetes constantes sobre “os terríveis perigos para os nossos filhos”. Mas ela argumenta que, a longo prazo, os aplicativos de rastreamento podem ter “consequências indesejadas, e também prejudiciais”, especialmente para o relacionamento entre pais e filhos.

Os fabricantes e anunciantes de aplicativos podem fazer com que os pais

acreditem que instalar esses aplicativos é um ato de amor pelos filhos, mas, para Livingstone, “o mais importante para o desenvolvimento é que a criança aprenda a confiar nos pais – e os pais, na criança”.

Depender de um aplicativo para descobrir onde um filho está ou o que ele está vendo online, ainda mais sem o seu conhecimento, pode prejudicar seriamente essa confiança, segundo ela, e poderá levar os filhos a fazer escolhas mais arriscadas ou aprender a escapar do rastreamento. Livingstone ressalta que, além do direito a estar em segurança, os filhos têm também direito à privacidade, principalmente à medida que ficam mais velhos.

Você certamente não precisa procurar muito para encontrar adolescentes – e até indivíduos com mais idade – que sentem que seus pais estão invadindo esses direitos ou não estão dispostos a abandonar suas rédeas digitais. A plataforma Reddit, em especial, está repleta de histórias de jovens que se sentem constrangidos pelo monitoramento remoto ansioso dos seus pais.

Na comunidade do Reddit chamada Insane Parents (“Pais Insanos”, em tradução livre), uma postagem recente diz: “Minha mãe viu que minha localização estava desligada no Life360, ameaçou desligar meu telefone e ainda disse que não posso mais dirigir o carro… Ah, eu já mencionei que tenho 20 anos de idade???”

Outra postagem na comunidade Life360, onde os usuários trocam informações sobre como fugir do monitoramento, era de um jovem que dizia ter 19 anos e tinha o celular pago pela mãe, o que o forçava a baixar o aplicativo.

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