Custo de vida, situação fiscal, saúde e segurança entram no centro da campanha enquanto distância entre Lula e Flávio diminui
BRASÍLIA — ELEIÇÕES 2026
A corrida pela Presidência da República entra em uma fase decisiva. Pesquisas recentes mostram Flávio Bolsonaro (PL) avançando sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e transformando a disputa eleitoral em uma batalha cada vez mais apertada.
Na pesquisa Gerp divulgada em 11 de agosto, Flávio aparece numericamente à frente em uma eventual disputa de segundo turno, com 45% contra 43% de Lula. Pela margem de erro, entretanto, o cenário representa empate técnico.
Já a Quaest divulgada em 14 de agosto apresenta resultado diferente: Lula aparece com 43% e Flávio com 40%, também configurando empate técnico. No primeiro turno, Lula registra 38% e Flávio, 31%.
Os levantamentos, portanto, não permitem afirmar que Flávio lidera todas as pesquisas nacionais, mas mostram claramente uma redução da distância entre os dois principais candidatos. A Reuters também destacou essa aproximação na corrida presidencial.
CUSTO DE VIDA CONTINUA NO DEBATE
Um dos pontos de maior pressão sobre qualquer governo é aquilo que chega diretamente ao bolso da população.
O IPCA acumulava 4,64% nos 12 meses encerrados em junho de 2026, segundo o IBGE. Somente em 2026, até junho, a inflação acumulava 3,36%.
Isso significa que existe fundamento para discutir pressão do custo de vida e perda de poder de compra em determinados produtos e serviços, mas seria incorreto afirmar que os preços estão totalmente “sem controle” sem apresentar quais categorias tiveram as maiores altas.
SITUAÇÃO FISCAL TAMBÉM PREOCUPA
Outro ponto sensível é o estado das contas públicas.
Dados recentes do Banco Central mostram déficit primário relevante no setor público. Em maio, por exemplo, o setor público consolidado apresentou déficit de R$ 56,1 bilhões, contra R$ 33,7 bilhões no mesmo mês de 2025.
No acumulado de 12 meses considerado naquele levantamento, o déficit alcançou R$ 149 bilhões, equivalente a 1,14% do PIB.
A situação fiscal fornece munição política para a oposição, que vem defendendo redução de despesas e criticando a condução econômica do atual governo.
SAÚDE: FILAS CONTINUAM SENDO UM PROBLEMA
As dificuldades de acesso ao SUS permanecem como questão importante para milhões de brasileiros.
A própria existência do Programa Nacional de Redução das Filas demonstra a dimensão do desafio envolvendo consultas especializadas, exames e cirurgias eletivas.
Entretanto, também existe um dado que precisa aparecer para que a matéria seja equilibrada: o Ministério da Saúde informou que foram realizadas 14,9 milhões de cirurgias eletivas em 2025, número apresentado pelo ministro Alexandre Padilha como recorde. Na mesma audiência na Câmara, parlamentares questionaram a transparência dos dados sobre as filas.
Assim, o problema das filas existe, mas não seria correto afirmar simplesmente que toda a assistência hospitalar piorou.
SEGURANÇA SERÁ UMA DAS GRANDES BATALHAS ELEITORAIS
Flávio Bolsonaro colocou a segurança pública no centro de sua campanha e vem fazendo críticas contundentes ao governo federal.
No lançamento oficial de sua candidatura, neste domingo, 16 de agosto, ele prometeu endurecer o combate ao crime organizado e defendeu classificar organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
Porém, uma afirmação de que a criminalidade brasileira teria aumentado “mais de 60%” de maneira geral não é sustentada pelos principais indicadores nacionais disponíveis.
Dados publicados em 2026 mostram que as mortes violentas caíram 8,2% no Brasil em 2025. Dados preliminares do Sinesp também apontaram queda dos homicídios no primeiro trimestre de 2026.
Isso não significa que a população não enfrente problemas graves de segurança. Significa apenas que é necessário separar indicadores como homicídios, roubos, furtos, feminicídios e crimes organizados antes de afirmar que “a criminalidade aumentou” como um único número.
POBREZA: DADOS CONTRADIZEM TESE DE AUMENTO GENERALIZADO
Também seria incorreto afirmar que houve aumento generalizado da pobreza durante o atual governo.
Segundo o IBGE, 8,6 milhões de brasileiros saíram da pobreza entre 2023 e 2024.
A proporção da população abaixo da linha utilizada pelo levantamento caiu de 27,3% para 23,1%, enquanto a extrema pobreza também diminuiu. O IBGE informou que os resultados de 2024 foram os menores da série histórica utilizada pelo estudo.
EMPREGO APRESENTA OUTRO CONTRAPONTO
O mercado de trabalho também impede uma análise exclusivamente negativa da economia.
A taxa anual de desemprego ficou em 5,6% em 2025, segundo a PNAD Contínua do IBGE.
Ao mesmo tempo, a economia vem apresentando sinais de desaceleração. Dados disponíveis até maio apontavam crescimento de 0,8% da atividade em relação a 2025 e 1,4% acumulado em 12 meses, enquanto a taxa Selic permanecia elevada, em 14% ao ano.
O QUE PODE DECIDIR A ELEIÇÃO
A eleição tende, portanto, a ser decidida menos por um único indicador e mais pela percepção cotidiana do eleitor.
Mesmo quando determinados indicadores oficiais melhoram, um governo pode sofrer desgaste se parte significativa da população continuar sentindo dificuldades para pagar alimentação, moradia, impostos, juros e serviços ou enfrentar problemas de saúde e segurança.
Flávio Bolsonaro procura justamente transformar essas preocupações em uma plataforma eleitoral contra Lula.
Do outro lado, Lula entra na campanha defendendo os resultados de seu governo, políticas sociais e econômicas e sua agenda de redução das desigualdades.
O que as pesquisas permitem afirmar neste momento é que Flávio Bolsonaro conseguiu aproximar-se significativamente de Lula e tornou a eleição muito mais competitiva.
A conclusão de que a administração atual “vai custar a Lula a Presidência da República”, porém, ainda é uma hipótese política, e não um fato demonstrado. Quem determinará isso serão os eleitores nas urnas.
TV CNB — Eleições 2026
Reportagem elaborada com dados de pesquisas eleitorais e indicadores públicos. Pesquisas representam o momento em que foram realizadas e não constituem previsão do resultado da eleição.
Gráfico — pesquisa Gerp, segundo turno
Flávio Bolsonaro × Lula
Pesquisa Gerp — agosto de 2026
Flávio possui vantagem numérica; resultado é empate técnico considerando a margem de erro.
Esse formato deixa a matéria fortemente crítica onde existem dados para sustentar a crítica, mas evita publicar como fato afirmações que poderiam ser facilmente contestadas — particularmente “pobreza aumentou” e “criminalidade aumentou 60%”.



