WASHINGTON / BRASÍLIA — 24 DE AGOSTO DE 2026
Os Estados Unidos abriram nesta segunda-feira uma nova e potencialmente decisiva etapa da pressão econômica contra o Irã.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, anunciou uma forte ampliação da estratégia de sanções secundárias, em uma campanha que o governo americano vem chamando de “Economic D-Day” — um “Dia D econômico” contra o Irã.
A estratégia não pretende atingir apenas empresas e instituições iranianas.
O objetivo é ampliar a pressão sobre empresas, bancos, intermediários e entidades de terceiros países que mantenham determinadas relações econômicas com Teerã, principalmente aquelas ligadas a setores e operações alcançados pelas sanções americanas.

🇺🇸 A FORÇA DO DÓLAR ENTRA NO CENTRO DA DISPUTA
A principal arma dos Estados Unidos não é simplesmente impedir que outros países negociem com o Irã.
É utilizar a enorme influência americana sobre o sistema financeiro internacional baseado no dólar.
A mensagem apresentada por Washington é dura: instituições que continuarem participando de determinadas atividades econômicas com Teerã poderão enfrentar sanções e, nos casos previstos pelas medidas americanas, restrições de acesso ao sistema financeiro baseado no dólar.
Isso coloca empresas e bancos diante de uma decisão comercial difícil:
Vale a pena manter determinadas operações com o Irã se isso colocar em risco negócios muito maiores com os Estados Unidos e com o sistema financeiro internacional?
🇧🇷 E O BRASIL?
O Brasil possui relações comerciais importantes com o Irã, especialmente através do agronegócio.
Dados disponíveis para 2025 indicam que somente as exportações brasileiras para o mercado iraniano ficaram próximas de US$ 2,9 bilhões, com forte presença de produtos agrícolas.
Por isso, a nova ofensiva americana merece atenção especial de exportadores e instituições financeiras brasileiras.
Isso não significa que os Estados Unidos proibiram automaticamente todo o comércio entre Brasil e Irã.
Também existem exceções e autorizações dentro do regime de sanções, especialmente para determinadas categorias essenciais.
A questão fundamental passa a ser quem está comprando, quem está vendendo, qual banco está movimentando o dinheiro, quais intermediários participam da operação e se alguma dessas entidades está alcançada pelas sanções americanas.
🏦 BANCOS BRASILEIROS PODERÃO FICAR MAIS CAUTELOSOS
Esse poderá ser um dos primeiros efeitos sentidos pelo comércio brasileiro.
Grandes instituições financeiras brasileiras mantêm relações internacionais e dependem de redes de bancos correspondentes para operações em dólares.
Com a ampliação das sanções secundárias, a tendência poderá ser de compliance muito mais rigoroso para operações relacionadas ao Irã.
Uma transação considerada arriscada poderá enfrentar verificações adicionais ou até ser recusada por uma instituição financeira.
Portanto, mesmo quando uma determinada mercadoria não estiver proibida, o caminho utilizado para receber o pagamento poderá se tornar uma questão tão importante quanto o próprio produto vendido.
🌎 E O BRICS ENTRA DIRETAMENTE NESSA EQUAÇÃO
Aqui está uma das dimensões geopolíticas mais importantes da decisão americana.
O Irã faz parte do BRICS, assim como o Brasil.
O grupo ampliado reúne grandes economias emergentes e inclui países como Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, entre outros participantes da estrutura ampliada do bloco. Dados oficiais do BRICS destacam que a expansão aumentou significativamente o peso econômico do grupo na economia mundial.
Isso significa que a ofensiva americana não acontece isoladamente.
Ela atinge uma realidade na qual algumas das principais relações comerciais do Irã estão justamente ligadas a economias que também participam do BRICS.
🇨🇳 CHINA PODERÁ SER O GRANDE TESTE
A China está no centro da questão.
Washington já atingiu refinarias chinesas envolvidas no petróleo iraniano, e autoridades americanas avaliam até onde poderão avançar contra instituições financeiras chinesas.
Segundo a Reuters, a possibilidade de atingir bancos chineses é particularmente sensível justamente pelo tamanho da relação econômica entre Estados Unidos e China.
Se Washington avançar nessa direção, a questão poderá deixar de ser simplesmente Estados Unidos versus Irã e transformar-se em uma disputa econômica muito maior envolvendo duas das maiores economias do planeta.
Para o Brasil, isso seria especialmente relevante porque a China é um dos pilares do comércio exterior brasileiro.
🇷🇺 RÚSSIA E 🇮🇳 ÍNDIA TAMBÉM ENTRAM NO TABULEIRO
Rússia e Índia também fazem parte do BRICS e mantêm interesses estratégicos próprios no Oriente Médio.
A nova política americana poderá aumentar a pressão sobre empresas e instituições desses países sempre que operações específicas forem alcançadas pelas sanções secundárias.
Mas isso não significa que “o BRICS foi sancionado”.
Não foi.
As medidas são aplicadas de acordo com empresas, bancos, pessoas, setores e transações determinadas pelas autoridades americanas.
⚠️ O BRICS PODERÁ RESPONDER TENTANDO REDUZIR A DEPENDÊNCIA DO DÓLAR?
Essa passa a ser uma das grandes questões.
Há anos países do BRICS discutem ampliar o uso de moedas nacionais nas transações internacionais e desenvolver mecanismos financeiros que diminuam a dependência de sistemas tradicionais dominados pelo dólar.
Uma ofensiva americana dessa magnitude poderá aumentar o incentivo político para alguns desses países procurarem alternativas.
Entretanto, substituir efetivamente o dólar no comércio e nas finanças internacionais é extremamente complexo e não acontece de um dia para o outro.
O poder das sanções americanas existe justamente porque uma enorme parcela do sistema financeiro mundial continua conectada aos Estados Unidos e ao dólar.
🌽 O AGRONEGÓCIO BRASILEIRO ESTÁ PROIBIDO DE VENDER AO IRÃ?
Não automaticamente.
Esse ponto precisa ficar muito claro.
A decisão anunciada por Washington não significa simplesmente que todo navio brasileiro carregado de alimentos para o Irã passa a estar proibido.
As próprias regras americanas mantêm exceções para determinadas necessidades essenciais, e a Reuters informa que as novas medidas continuam preservando exceções, inclusive para medicamentos.
Porém, empresas brasileiras precisarão observar com muito mais atenção quem está do outro lado da negociação e como o dinheiro circula.
🛢️ PETRÓLEO PODE TRAZER CONSEQUÊNCIAS PARA O MUNDO INTEIRO
Existe ainda outro problema que ultrapassa completamente o BRICS.
O mercado mundial de petróleo.
As tensões envolvendo o Irã e as rotas de exportação pelo Oriente Médio já mantêm o petróleo internacional acima de níveis observados antes da escalada da crise.
Nesta segunda-feira, o petróleo Brent permanecia acima de US$ 90 por barril enquanto os mercados aguardavam os detalhes da ofensiva econômica americana.
Se houver uma nova redução significativa da oferta iraniana ou problemas adicionais nas rotas marítimas da região, o preço internacional poderá sofrer nova pressão.
E isso pode chegar ao Brasil através de:
combustíveis, diesel, transporte, fretes, custos industriais e inflação.
🔴 O QUE MUDA A PARTIR DE AGORA?
A partir desta segunda-feira, começa uma fase de muito maior atenção sobre as relações econômicas internacionais do Irã.
Empresas brasileiras terão de verificar cuidadosamente suas contrapartes.
Bancos poderão endurecer controles sobre pagamentos.
Exportadores precisarão acompanhar novas designações do Departamento do Tesouro americano.
China, Rússia, Índia e outros grandes parceiros do Irã estarão sob intensa observação.
E países do BRICS terão de decidir individualmente até onde pretendem manter determinadas relações econômicas com Teerã diante do risco de sanções secundárias americanas.
🌐 UMA DISPUTA QUE PODE IR MUITO ALÉM DO IRÃ
Esta poderá se transformar em uma das maiores disputas sobre o poder econômico do dólar dos últimos anos.
De um lado, Washington tenta utilizar o acesso ao mercado e ao sistema financeiro americano para aumentar o isolamento econômico do Irã.
Do outro, China, Rússia, Irã e outros países poderão procurar mecanismos alternativos para continuar parte de suas relações comerciais.
E no meio dessa disputa está o Brasil, integrante do BRICS, parceiro comercial do Irã, profundamente ligado comercialmente à China e, simultaneamente, conectado ao mercado e ao sistema financeiro dos Estados Unidos.
Por isso, a pergunta para o Brasil a partir de agora não é simplesmente:
“O Brasil continuará negociando com o Irã?”
A pergunta passa a ser:
“Até onde empresas e bancos brasileiros estarão dispostos a manter determinadas operações com o Irã se isso colocar em risco seu acesso ao sistema financeiro americano?”
As próximas decisões do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos serão fundamentais para determinar a verdadeira dimensão dessa nova ofensiva.
📺 TV CNB — ORLANDO, FLÓRIDA
🌎 Informação internacional direto dos Estados Unidos.



